Anette

Nota da autora: Bom dia leitores, esse texto postado hoje, feito por mim, tem uma dose bem fraca de terror, porém é muito bonita a história. Vale a pena lê-la. Um outro aviso, gostaria que se vocês fossem copiar o texto em outro lugar não desmerecessem os direitos autorais (isso válido para todos os textos de minha autoria). Grata. Boa leitura. (:

         

Loira, dos olhos azuis, faz 13 anos em julho; esta era a Anette, não digo que ela era a menina mais bonita da sala, ninguém achava isso, mas eu era apaixonado por ela. Ela tinha um temperamento um tanto quanto explosivo, mas ao mesmo tempo uma delicadeza e uma doçura. Lembro da primeira vez que falei com Anette, eu estava tímido, sou um ano mais velho que ela, conheci ela através de meu pai, que dava aula para nós dois, e como a mãe dela falecera e o pai trabalha em dois empregos para sustentá-la ele foi obrigado a colocar a menina na escola período integral, o que facilitou de eu falar com ela. Anette tinha bastantes amigos, porém estes eram todos falsos para com a menina, já que eram amigos apenas para usufruir da pouca popularidade que tinha por se vestir bem, ela era aficionada por moda.

Ela sabia que seus amigos eram falsos, não sei porque ela não cortava relações com eles. Ela estava sempre com eles, e eles faziam brincadeiras ridículas com ela. Como quando jogavam papelzinho em seu cabelo cacheado, ou ainda riscavam ela toda. Pegavam suas coisas. Ela sempre foi mais fraca. Ela chorava sempre, chorava muito.

Pior foi quando cortaram as cordas de seu violino antes de uma apresentação para que a outra garota, mais bonita e mais popular, ganhasse o prêmio de melhor violinista da escola. Lembro muito bem de vê-la chorando este dia, era importante para ela aquele prêmio, mas quem se importava? De seus olhos avermelhados lágrimas quentes escorriam pelo seu rosto frio do nervosismo. Ela não sabia o que fazer. Eu dei um abraço nela, e mandei que se acalmasse. Ela não me ouviu, já estava cansada de todos ao seu redor.

Ela sempre tentava falar com a diretora, Débora, mas esta nunca a ouvia, pois a menina sempre era a minoria. Anette tinha raiva do fato da diretora achar normal que alguém corte as cordas de seu violino, de que alguém jogue papelzinho em você, de que alguém roube suas coisas. Mas se Anette chingasse algum aluno que fez isso com ela, esta seria repreendida. Tinha que ajudar na limpeza da escola, o melhor castigo para uma menina que estuda em período integral.

Dia seguinte na aula ela estava diferente. Seus cabelos loiros cacheados estavam armados e despenteados, como se acabasse de acordar. Todo mundo riu dela. Ela não mudou a expressão de indiferença da sua face. Eu realmente estava apavorado, Anette tinha sempre um sorriso alegre em seu rosto, mas esse dia ela estava com um olhar mais diabólico. Parecia que queria matar alguém. Ela ficou quieta durante todo o dia, não falou nem comigo.

Isso se repetiu durante vários e vários dias, a menina ficou em silêncio, como um leão que espera o melhor momento para atacar a presa, quieta no seu canto, tremendo a raiva, largada de qualquer jeito. Um ser humano realmente consegue destruir o psicológico do outro. Ela andava pelos corredores rastejando e balbuciando coisas estranhas. Parecia latim. Nossa escola tinha curso de latim, mas eram poucos os alunos que frequentavam. Como Anette gostava da cultura das civilizações antigas, ela fazia.

Essa semana na escola era a semana do torneio inter-escolar de bola-mastro. Todos estavam agitados, menos Anette. O time estava treinando como nunca para conseguir o primeiro lugar, já que no torneio passado nós ficamos em segundo. A Débora, diretora, entrou na nossa sala para avisar que não haveria aula apartir de amanhã. Quando Débora virou-se para sair da sala a porta bateu com tudo. Ela tentou abrir, mas havia se trancado. Hesitou, pegou seu molho de chaves e tentou destrancar, a chave quebrou-se dentro da fechadura.

Os alunos ficaram tensos e começaram a gritar, confesso que eu também estava morrendo de medo. A luz da sala começou a piscar o que apavorou ainda mais os alunos. Com o tempo, eles pararam, pois sabiam que não conseguiriam fazer nada gritando, só estourar as suas cordas vocais.

Eu desviei meu olhar preocupado para Anette e vi que seus olhos estavam mais vermelhos que o normal, ela estava desenhando na carteira, como de costume, mas desenhava símbolos e escrevia frases em latim. A luz que piscava, apagou, a sala havia ficado por um instante em silêncio. A luz acendeu-se, Anette era a única em pé. Caminhava com dificuldade em direção a frente da sala, o que fez todos ficarem atentos à ela, pois pensavam que ela estava passando mal, pela tensão.

Anette cravou as unhas na mesa dos professores e escalou-a, pôs-se em pé sobre ela. Olhou pra todos que estavam abaixo dela, balbuciou algumas palavras em latim, as lâmpadas da frente da sala estouraram. As pessoas assustaram, Anette pulou sobre a diretora mantendo-a imóvel e deu-a um soco na cara. A diretora empurrou ela para longe. Anette bateu em minha carteira. Pude ver protuberâncias em suas costas, fazendo com que a blusa levantasse um pouco. Anette pulou sobre a Débora novamente, desta vez cravando as unhas em seus braços. Todos estavam tensos e por isso permaneceram imóveis apenas observando a cena.

Ela parecia cada vez mais forte. E a diretora já estava toda mutilada. Anette queria vê-la morta, pegou seu compasso e enfiou na garganta de Débora, atingindo a aorta. Ela rasgou o máximo que conseguiu a garganta de sua inimiga, e bebeu-lhe o sangue até esgotar-se. Sua transformação completou-se. Anette tinha dentes pontiagudos afiados, asas de como as de morcego, unhas compridas e chifres, assim como um demônio.

Ela sacodiu suas asas e grunhiu, disse com a voz alterada, mais grossa que a de meu pai, que matariam todos lentamente e dolorosamente. A sala agitou-se, todos começaram a correr e a gritar com medo do demônio. Ela matou um a um; ou comendo a cabeça, ou furando a artéria, ou arrancando as tripas, ou separando os membros das vítimas do corpo, desfigurou as faces, bebeu-lhes o sangue, comeu-lhes os olhos, causou terror; fez com que aqueles que ela odiasse sofressem muito. Até que sobrou na sala apenas ela, um monte de restos mortais e eu.

Estava desesperado, comecei a correr como um louco, sabia que não adiantaria, mas correr me deixava mais seguro. Anette me agarrou com suas compridas e afiadas garras fazendo cortes nas minhas costas. Ela me levantou, puxou minha cabeça com agressividade contra a dela e chegou com sua boca perto de mim, encostou os seus dentes afiados sobre meus lábios e colocou sua língua cheia de sangue entre meus dentes. Sua boca tinha gosto de cadáver, um gosto inesquecível.

Após isso ela caiu ao chão, e eu sobre ela. Sua pele voltou a ser macia, seus cabelos voltaram a ser louros e sedosos; era a Anette que eu conhecia. Abracei-a. O corpo dela estava solto, sem energia. A porta se abriu. Peguei minha amada no colo, e saímos daquele inferno causado.

Foram tristes suicídios. 

Luana Cristini

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